
Só pra falar de indignação... De coisas que não sabemos, que não vemos, de coisas que ninguém fala, ninguém discute, é só uma notícia que escapa aqui e outra ali. Observe a ação da tropas brasileiras no Haiti.
Haiti: Natal de sangue em verde-amarelo - Mário Maestri - 27.12.2006
Em Cité Soleil, o Papai Noel chegou cedo e de surpresa, às 4h30 da sexta-feira, 22 de dezembro, pilotando um blindado Urutu, em vez do tradicional trenó, junto a quatrocentos soldados brasileiros da Minustah e da temida Polícia Nacional haitiana. Durante a longa madrugada, em vez de presentes, distribuiu magnânimo a dor, o medo e a morte. Pela manhã, partiu levando nas costas o saco avermelhado com as vidas de no mínimo quatorze adultos e crianças
Tão violento foi o ataque que a população da megafavela de Cité Soleil manteve-se por terra durante toda a noite, enquanto as balas perfuravam as frágeis moradias. Ao amanhecer, além dos mortos e dezenas de feridos, a população teve que penar com a falta de água, pois boa parte das cisternas dos barracos foi perfurada pela munição de guerra. Pela tarde, as ruas desertas eram percorridas por raros populares assustados, levando parentes feridos aos hospitais.
A indignação dos moradores da Cité Soleil agravou-se sobretudo porque os soldados brasileiros impediram que médicos e enfermeiros socorressem imediatamente os adultos e crianças feridos. Pierre Alexis, responsável da Cruz Vermelha em Cité Soleil , denunciou que as tropas impediram a entrada dos veículos da organização no bairro: "A Cruz Vermelha não faz política", declarou, "Seu papel é socorrer qualquer pessoa [...]".
Haiti
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui


2 comentários:
Eu, pelo pouco que entendo da História, da vida e de tudo mais, penso que a soberania dos povos deve-se colocar sempre acima de qualquer coisa no plano internacional. Ingerência em assuntos de outros países nunca deu e nunca dará certo. Acho legítimo que se proteste contra o envio de tropas para lá, até por achar que a ONU consiste numa idéia e numa instituição inviáveis. Mas acho meio ingênua a frase do manifesto, que "exorta" os demais a deixarem que os haitianos escolham seu futuro. Escolher? Será mesmo possível para um popular da ilha escolher alguma coisa? É uma liberdade semelhante à que vemos no Brasil - condicional, frágil, quase surreal...
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